Narradores
Brás Cubas: quem decide a ordem de uma lembrança?
A morte aparece antes do nascimento. Depois, até um diálogo pode dispensar palavras. A forma de contar também participa da história.

Em Memórias póstumas de Brás Cubas, conhecer a sequência dos acontecimentos não basta. É preciso observar quem escolhe apresentá-los, quanto demora em cada episódio e quando prefere interromper uma explicação. Esta leitura aproxima três pontos breves: o aviso ao leitor, o início do capítulo I e o capítulo LV. A hipótese é que o narrador tenta governar tanto a lembrança quanto a atenção de quem lê.
Começar pelo fim muda o acordo
A abertura poderia apresentar a infância, a família e uma sucessão de etapas. Brás Cubas considera essa possibilidade e escolhe outra: começa por sua morte. A inversão é declarada pelo próprio narrador. Assim, a ordem do livro deixa de parecer um caminho inevitável e aparece como uma decisão de alguém que se diverte com o poder de organizar a narrativa.
Uma leitura possível é que essa escolha nos torna atentos às escolhas seguintes. Se o narrador anuncia que pode inverter o começo e o fim, também pode alongar uma minúcia, encurtar um sofrimento ou adiar uma informação. Isso não autoriza a chamar cada frase de mentira. Convida a perguntar qual efeito a apresentação produz, além do acontecimento que ela transmite.
O leitor entra como personagem da conversa
No texto dirigido ao leitor, a disposição de explicar o livro convive com provocações. Brás Cubas imagina a recepção da obra e se dirige a um público que ele mesmo desenha. Esse destinatário pode se sentir convidado e, logo depois, dispensado. A familiaridade não elimina a disputa: o narrador solicita nossa companhia sem abrir mão de escolher as condições.
Convém separar essa voz da pessoa de Machado de Assis. O que Brás Cubas afirma sobre seu gosto, suas intenções ou seus leitores pertence à construção da personagem que narra. A ironia pode surgir justamente da diferença entre aquilo que ela gostaria de fazer parecer e aquilo que o leitor percebe em suas decisões.
O diálogo que exige participação
No capítulo LV, os nomes de Brás Cubas e Virgília alternam-se entre sinais de pontuação e linhas pontilhadas. A página preserva a aparência de uma conversa, mas retira suas frases. O título oferece uma orientação, sem entregar uma transcrição. O leitor reconhece uma troca e precisa imaginar o que ela não explicita.
Aqui, nossa interpretação é que a lacuna faz parte da cena. Preenchê-la com uma única conversa supostamente correta reduziria o recurso. Mais produtivo é observar o que ainda funciona sem palavras: alternância, expectativa, pausa e resposta. A experiência também corrige uma impressão inicial: o narrador controla a disposição da página, mas depende do leitor para que o silêncio adquira movimento.
À margem da leitura
Três colunas para uma memória
Use uma folha para distinguir acontecimento, apresentação e silêncio. A atividade não exige terminar o romance.
Acontecimento
Anote o que efetivamente é informado no capítulo I, sem acrescentar explicações que só aparecem depois.
Apresentação
Registre qual informação veio primeiro e qual seria a ordem cronológica. Escreva uma frase sobre o efeito da diferença.
Silêncio
No capítulo LV, descreva o funcionamento dos turnos sem inventar suas falas. Compare essa participação exigida do leitor com o modo como ele é tratado no aviso inicial.
- Em qual dos três trechos o narrador parece mais dependente da colaboração de quem lê?
Nesta leitura, recordar não significa apenas recuperar fatos. Significa montar uma sequência e negociar a atenção do leitor, inclusive por meio do que fica sem explicação.
Texto e edição consultados
Machado de Assis. Brasília: Edições Câmara, 2018. Texto do romance consultado na edição digital; recorte: Ao leitor e capítulos I e LV. As observações deste caderno não reproduzem o prefácio da edição.
1881: primeira edição em livro de Memórias póstumas de Brás Cubas; o ano não designa sua circulação anterior em periódico.